2004 – Rota Austral: Porto Alegre a Ushuaia

Depois da viagem de 1995, prometi ao Milani que logo que comprasse uma camionete, sonho de criança/adolescente/adulto, passaria uma mensagem convidando-o a irmos até o Fim do Mundo. Dito e feito. Em 2002 comprei uma Toyota CD 2000, preta, a PODEROSA . Passei um e-mail para o Milani perguntando: Vamos?  Vamos! A resposta foi imediata. Como esta é a primeira grande viagem ao ‘desconhecido’ e temido Fim do Mundo, todos estavam muito preocupados em coletar dados. Um ano de intensos preparativos, desde a leitura de uma infinidade de materiais coletados na internet, relatos de viajantes e até propaganda de agências de viagens. Foi traçado o roteiro. A partir daí decidir o que  levar, possibilidades de acampamento ou não, etc, etc. Para que esta comunicação fosse possível simultaneamente por todos os participantes, formamos um grupo de discussão no Yahoogrupos. Este grupo chegou a ter dezoito participantes, mas somente sete participaram efetivamente da viagem:
Os componentes que moram em Natal embarcaram os carros em um caminhão cegonha até Porto Alegre e seguiram de avião. O restante do grupo foi de carro até o Rio Grande do Sul. Marcamos nosso encontro para o dia 22 de janeiro de 2004 em Bento Gonçalves – RS, na casa dos pais do Milani que nos receberam muitíssimo bem. Passamos o dia confraternizando e discutindo a viagem, obviamente.
Como eu e Marinês temos nossos familiares em Caxias do Sul, fomos até lá nos despedir e passar o tempo ainda disponível com a família e amigos. O dia seguinte seria a viagem.

INTEGRANTES: 28 dias de viagem, ida e volta de Porto Alegre.

Enio e Marinês – Toyota CD                        Natal – RN
Zé e Catarina e Odileno – Toyota CD        Natal – RN
Álvaro e Mara – Land 110                            Natal – RN
Alexandre e Gleide – Land 90                    Natal – RN
Milani e Vilma – Blazer diesel                     Rio de Janeiro – RJ
Túlio e Heloisa – Land 110                        Macaé – RJ
Cabral e Neide – Land 90                          Goiania – GO

PONTOS MARCANTES DA VIAGEM:

– O pampa gaúcho, do Brasil à Argentina, é fantástico!
– Bariloche é ponto obrigatório. Mesmo com pouca neve é sempre maravilhosa!
– A Carretera Austral até Puyuhuapi, com suas montanhas e matas e mais o clima de inverno foi esplendoroso!
– Ventisqueiro Colgante a geleira ‘pendurada’ é sensacional!
– Nosso primeiro acampamento totalmente selvagem no meio do deserto patagônico foi inesquecível!
– A mudança na paisagem deixando o verde das florestas e passando para mais desértica, com lagos e rios multicoloridos, é inexplicável!
– Fitz Roy e a cidade de El Chalten aos seus pés são uma visão estupenda!
– A majestosa geleira Perito Moreno é fora do comum!
– Torres Del Paine e arredores são monumentais!
– Treking subindo, subindo e subindo as Torres Del Paine, é incansável!
– Atravessar o Estreito de Magalhães traz recordações da época de escola, é memorável!
– USHUAIA – sonho realizado!
– Costa Leste argentina com seu vento patagônico e suas falésias repletas de vida selvagem é indescritível!
– Península Valdez, imperdível!

23-01-2004 – A viagem começa aqui. Apesar de um ano de intensos preparativos a expectativa é grande. Todos os carros foram equipados com rádio transmissor VHF para a conversa correr animada. A primeira parada foi Pantano Grande, RS, para comer o tradicional pastel de beira de estrada. Descansamos um pouco e seguimos, atravessamos o pampa gaúcho, ultrapassamos a fronteira em Santana do Livramento/Rivera, seguimos pelo pampa Uruguaio, atravessamos o Rio Uruguai em Paysandu e dormimos em Concepcion Del Uruguay. O Hotel Cassino é muito antigo e estava em péssimas condições de manutenção, mas o cansaço sempre vence.

24-01-2004 – Passamos um tempo consertando problemas elétricos na Land do Alexandre. Deu curto circuito na seta pisca. O Magaiver Túlio tentou o conserto, mas no fim tivemos que recorrer a um eletricista profissional.
Saímos mais tarde e acabamos dormindo em Santa Rosa – AR, no Residencial Calden, mas antes saboreamos uma bela parillada.

25-01-2004 – Seguimos para Bariloche tranquilos, só apreciando a Patagônia Argentina. Só fomos parados por uma barreira fito-sanitária para a dedetização dos carros, mediante um módico pagamento, e seguimos viagem.

26-01-2004 – Passamos o dia passeando por Bariloche, visitando a cidade, fomos ao Cerro Otto almoçar no restaurante rotativo e subimos o Cerro Catedral, apesar de não ter neve nesta época do ano, mas a subida de teleférico e a vista compensam a subida.

27-01-2004 – Saímos cedo em direção sul. Passamos por El Bolson, 120 km de Bariloche e fomos visitar uma feira que estava acontecendo. Tinha desde comidas a artesanato. El Bolson foi invadido por artesãos, músicos, escritores e artistas de todo tipo e por isso mesmo a feira é super diversificada.
Na divisa Argentina/Chile uma placa bastante interessante nos alertava: LA TIERRA NO LA HEREDAMOS DE NUESTROS PADRES SOLO LA TOMAMOS PRESTADA DE NUESTROS HIJOS (a terra nós não herdamos de nossos pais somente tomamos emprestada de nossos filhos).
O clima a partir do Passo Internacional Rio Futaleufú começa mudar. A temperatura cai um pouco e uma névoa fina umedece e se mistura com a vegetação abundante nas encostas das montanhas que por sua vez são encimadas por uma camada de neve remanescente do inverno que se foi. Visual lindíssimo.
Chegamos a Futaleufú. É uma cidade pequena mas muito simpática, bem cuidada, uma praça muito bonita, casas simples mas tudo parece organizado e limpo. Ficamos no principal e simpático hotel da cidade, a Hosteria Rio Grande, todo de madeira, e principal ponto de encontro dos aventureiros que descem o Rio Futaleufú fazendo rafting e canoismo. Aliás, Futaleufú é considerada uma das capitais mundiais de rafting. Jantamos no próprio hotel um gostoso salmão acompanhado de um bom vinho nacional (chileno!) ao lado da lareira.

28-01-2004 – Acordamos cedo e seguimos nossa viagem em direção a Puyuhuapi. Andamos devagar para poder curtir o visual e tirar muitas fotos. É um caminho fantástico, as cascatas de água de degelo descendo as altas montanhas, o verde intenso da mata e o amarelado dos musgos e tudo misturado com a névoa que ainda estava presente. Os belos rios com águas transparentes e com fortes correntezas e suas pontes, compunham um cenário magnífico. Tivemos uma breve parada na estrada devido à queda de uma barreira, mas sem consequências maiores.
Puyuhuapi é uma pequena cidade portuária, mais parecida com uma vila, fundada por alemães. As casas são predominantemente de madeira com influencia alemã em sua arquitetura. Ficamos hospedados em uma pousada que era a própria casa de uma família alemã. Muito confortável e cercada por um grande jardim florido. Visitamos a fábrica de tapetes da família e ficamos admirados com a destreza das mulheres que confeccionam os tapetes. Não se consegue acompanhar o movimento das mãos destas artesãs, tamanha a velocidade. Só depois de pedir para fazerem devagar a gente percebe o trabalho, e que trabalho! À noite fomos jantar no Café Rossbach, de propriedade da mesma família dona da pousada e capitaneada pela matriarca. Ela nos serviu um prato de paleta de porco cozido no vinagre, água, folhas de louro e sal. Estupendo!

29-01-2004 – 9:00 horas já estávamos prontos para seguir até Coihaique. Primeiro passamos pelo Parque Nacional Queulat para vermos o Ventisqueiro Colgante. Vale à pena. É uma geleira que está ‘escorrendo’ entre duas montanhas e no seu final tem um precipício que quando um bloco de gelo se desprende e cai causa um estrondo assustador. Para chegar mais perto é preciso enfrentar um caminho íngreme e escorregadio no meio do mato, mas a vista do ventisqueiro compensa. O caminho continuou maravilhoso. Grandes lagos com intensa criação artificial de peixe, caminhos ladeados por um arbusto de folhas gigantes o que nos fez imaginar como os dinossauros deveriam se deliciar com elas. A estrada continua sendo de rípio, mas muito bem conservada. O que nos chamou muito a atenção foi a grande quantidade de toras de madeira caídas. Segundo informações que obtivemos e que não conseguimos confirmar, é que houve um grande incêndio provocado por pecuaristas que durou dois anos e consumiu uma quantidade imensa de florestas. Algumas fazendas aproveitaram estas toras para fazer cercas, cortando e colocando os pedaços um ao lado do outro fazendo um verdadeiro muro de centenas de metros.
Em Coihaique resolvemos fazer nosso primeiro acampamento. Encontramos um com razoável infraestrutura, banheiros com água quente, e gramado. Armamos nossas barracas e junto com a chegada da noite o frio foi aumentando. Mesmo com o frio ficamos até quase meia noite jogando conversa fora e saboreando um bom vinho.

30-01-2004 – Tiramos o dia para descansar e conhecer os arredores de Coihaique que é uma região lindíssima. Fomos ao supermercado reabastecer as dispensas e comprar carne para um churrasco. Este churrasco no acampamento foi especial porque abrimos 18 garrafas de vinho, e nem sentimos frio!

31-01-2004 – Próximo destino, Cochrane. O caminho continua deslumbrante, cercado de altas montanhas nevadas e o que mais chama atenção agora é o colorido dos lagos. Cada lago mais bonito que outro. As cores variam e é difícil traduzi-las. Mesmo quando há uma sequência de lagos, cada um apresenta-se com uma cor diferente do outro. Até mesmo os rios possuem cores diversas. É um verdadeiro show da natureza.
Cochrane, uma cidade pequena, mas com boa infraestrutura, muito visitada por turistas e pescadores. Alugamos uns chalés e dividimos cada um por dois casais.

01-02-2004 – A intenção era chegar a El Chalten, mas devido a alguns problemas tivemos que fazer uma parada estratégica. Saímos tarde de Cochrane. Fomos a uma telefônica para saber notícias de casa, comprar algumas coisas e acabamos saindo por volta de 11:00. Uma pequena demora na aduana Chilena e Argentina. Despedimo-nos da Carretera Austral e cruzamos a Entrada Baker. A partir deste ponto nota-se perfeitamente a mudança na vegetação que agora é mais rala prenunciando uma região desértica.
De repente ouço um barulho forte debaixo do carro e fico assustado. Paro e vou ver o que está acontecendo. Nada de grave, apenas a bucha da barra estabilizadora que caiu fora. Coincidentemente, Milani que estava uns 10 km adiantado, parado em uma ponte tirando fotos, diz que tinha acabado de pisar sobre uma mangueira velha com alma de aço e que achava que poderia quebrar o galho substituindo a bucha. Voltou e fizemos a ‘enjambração’ que ficou ótima, talvez melhor que uma bucha original. Seguimos viagem até Bajo Caracoles onde talvez pudéssemos acampar. Infelizmente o camping não oferecia muitas condições. Mesmo com o adiantado da hora, resolvemos seguir adiante até onde seria possível. À noite nesta época do ano e nesta latitude só escurece depois das 21:00. Combinamos que seguiríamos até o sol começar se esconder e aí, caso não encontrássemos nada melhor, procuraríamos um lugar para acampar. Depois das oito da noite finalmente achamos um capão com belas árvores na beira de um rio, coisa rara por aquelas bandas. Fizemos nosso acampamento totalmente selvagem. Uma maravilha de acampamento. Esse capão era usado por caçadores e era evidente porque até uma perna de Ema eles deixaram para trás. E pelo jeito eles estiveram por aí na noite anterior. Nos últimos clarões do sol, apareceu um motoqueiro, europeu (não me lembro da onde) pedindo ajuda pra ele e um amigo que estavam sem água e comida porque estavam com o pneu de uma das motos sem a mínima condição de conserto e já estava o dia todo procurando ajuda. Oferecemos abrigo mas o rapaz decidiu levar as coisas para o colega e passar a noite lá onde eles estavam. Combinamos que se eles voltassem de manhã cedo nós poderíamos levá-los até onde poderiam consertar a moto. Como não apareceram, supomos que já tinham conseguido carona.

02-02-2004 – Agora sim, direto para El Chalten e aos picos Fitz Roy. Depois de umas duas horas pela Ruta 40, apesar de ser de rípio está em bom estado, precisamos fazer uma parada na estrada mesmo para reabastecer as Lands que já estavam no limite de segurança quanto ao combustível. Esvaziamos as bombonas de diesel e seguimos em frente apreciando a bela paisagem, agora desértica com picos nevados ao fundo. Finalmente chegamos ao Parque Nacional Los Glaciares onde se pode ver a imponência dos picos Fitz Roy e a cidade de El Chalten aos seus pés.
Como o tempo estava bom, eu, Zé, Odileno e Milani resolvemos curtir mais um camping. No entardecer o reflexo do sol nas nuvens nos proporcionou um espetáculo de cores magnífico.

03-02-2004 – Aproveitamos o dia para desenferrujar fazendo um treking. Pedimos algumas informações e seguindo a sinalização subimos até um mirante onde se viam os picos com a geleira escorrendo nas suas encostas. Esta cena maravilhosa ainda estava um pouco distante e eu, Zé, Odileno e Túlio resolvemos fazer mais este esforço para chegar o mais próximo possível. Valeu à pena! Seguimos por um caminho no meio do mato bordejando um rio pedregoso e escalamos um dique formado pelos seixos de uma morena glacial que estava aprisionando as águas do degelo formando um lindo lago com pequenos icebergs e logo ali adiante as geleiras e os picos. Fantástico.

04-02-2004 – Seguimos para El Calafate seguindo as belíssimas paisagens já comuns por toda a região. O tempo continuava gostoso e decidimos acampar novamente. Conseguimos um camping próximo ao centro da cidade e com churrasqueira. Reabastecemos as caixas de mantimentos, compramos carne para o churrasco, afinal de contas a churrasqueira não poderia ficar sem fogo, e as roupas mandadas para lavanderia.

05-02-2004 – A majestosa Geleira Perito Moreno é fora do comum! É difícil descrever o que se vê e o que se sente próximo a uma geleira como esta. Sua parede frontal de gelo em torno de 60 metros de altura provoca um estrondo cada vez que uma placa de gelo desmorona. Fizemos um passeio de barco pelo Lago Argentino passando perto do Perito Moreno. Também escalamos a geleira, colocamos os grampões, que é uma espécie de sandália de ferro com pontas no solado para não escorregar no gelo e mais luvas para não machucar as mãos em caso de queda. Uma sequência de subidas e descidas no gelo admirando o azul neon intenso nos buracos no gelo nos fez parecer meninos brincando. No final do passeio, nos foi oferecido whisky com o gelo do próprio Perito Moreno. Show de bola e inesquecível!

06-02-2004 – Para as Torres Del Paine. Um trecho pequeno onde o rípio não deu trégua, muita poeira e costelas de vaca. A minha Toyota perdeu parte do para-choque dianteiro devido à trepidação e o tanque da Toyota do Zé rasgou o tanque por causa de uma pedra. O Zé ‘remendou’ o tanque com durepox, que segundo ele, é melhor que solda, e seguimos viagem. Novamente escolhemos acampamento. Túlio e Álvaro preferiram procurar hotel para ficar, mas acabaram voltando para o acampamento porque são tinha vaga em hotéis muito caríssimos. O acampamento foi excelente. Boa infraestrutura e um lugar especial, aos pés das Torres. Armamos as barracas e eu e Alexandre fizemos um carreteiro com as sobras do churrasco de El Calafate. E fizemos em três panelas sobre três fogareiros de camping e tudo ao mesmo tempo, de orgulhar qualquer gaúcho. Mas bá tchê!

07-02-2004 – Enquanto o pessoal preferiu passear de carro, eu, Marines, Milani e Vilma, decidimos fazer um treking e subir a montanha. Mochila nas costas com água e começamos a subir, subir, subir…..chegamos a um ponto que pensamos em desistir mas teimosamente subimos mais um pouco e se descortinou uma vista espetacular de um vale magnífico. Pensamos em seguir o vale, que era descida mais ou menos suave, mas pensamos na volta e aí sim acabamos desistindo. Tudo bem, já foi o suficiente e o esforço foi muito bem recompensado. Voltamos ao acampamento exaustos, almoçamos e caímos na cama, digo, nos colchonetes. Dormimos uma boa parte da tarde e aí pegamos os carros e fomos visitar as redondezas do lugar. Não é nem preciso dizer que foi de uma beleza impressionante.

08-02-2004 – Seguimos para Punta Arenas sem nenhum problema, só apreciando a paisagem. Um fato que chamou a atenção de todos foi a quantidade de lebres mortas no leito da estrada. O interessante é que o movimento na Ruta 40 é pequeno pela quantidade de bicho morto. O Zé recolheu uma dessas lebres atropeladas e ainda agonizando, mas que morreu logo em seguida, e colocou na caçamba da Toyota dizendo que seria um desperdício não comê-la.
Passamos por Puerto Natales onde abastecemos, fizemos um lanche e seguimos. Em Punta Arenas ficamos em um hotel pequeno, mas confortável. Neste mesmo hotel estavam hospedados três motoqueiros brasileiros de Bento Gonçalves, que também estavam indo para Ushuaia. O Zé escolheu uma pousada onde, segundo ele, acabou saboreando a lebre.
O Túlio acabou indo para a zona franca, mas não comprou nada porque os preços não estavam convidativos. Segundo a programação da Heloisa, ela teria que pegar o avião aqui para voltar a Macaé onde tinha compromissos. Mas o Túlio ‘Magaiver’ continuou a viagem conosco.

09-02-2004 – Rumo a Ushuaia. Saímos cedo e 10:00 horas já estávamos atravessando o Estreito de Magalhães. O famoso Estreito de Magalhães que ouvimos falar tanto no nosso tempo de escola, agora estava aí na nossa frente. Preferimos fazer a travessia por Punta Delgada ao invés s Punta Arenas. O motivo de nossa escolha foi que o preço do ferry aqui era muito maior que em Punta Delgada e também porque provavelmente não iríamos todos de uma vez e isto poderia demandar um tempo grande de espera até todos atravessarem. Quando chegamos a Punta Delgada a fila carros era enorme e metade do pessoal ficou para fazer a travessia na outra vez. Mas a travessia é rápida, cerca de 20 minutos. Do outro lado do canal tem um terreno minado! Ainda do tempo das escaramuças entre Chile e Argentina. Uma péssima visão. Logo mais adiante entramos na Província de Tierra Del Fogo onde se lê uma placa bem grande e vistosa “Las Malvinas son Argentinas”.
À medida que nos aproximávamos de Ushuaia o tempo foi fechando e o céu escuro sobre as montanhas era mais uma visão inusitada para nós.
USHUAIA – BIENVENIDOS A LA CIUDAD MAS AUSTRAL DEL MUNDO – Esses são os dizeres escritos no portal, na entrada da cidade. Apesar do frio, paramos para registrar em fotos o objetivo alcançado. Entramos na cidade já tarde da noite mas, conseguimos uma bela pousada com chalés em meio a um bosque, e um enorme cachorro que só sabia fazer agrado para ganhar alguma coisa para comer.

10-02-2004 – Passamos o dia procurando concessionárias para agendar alguns pequenos consertos, troca de óleo e na parte da tarde fomos passear. Fomos a Estación Del Fin Del Mundo fazer o passeio de trem. De certa maneira foi uma decepção porque o bilhete não é barato, o trem é pequeno e o passeio é lento demais, curto e uma voz narrando o que os pobres presidiários sofreram naquelas terras tendo que cortar árvores no inverno. Coitados! A narrativa era tão ‘apelativa’ que quase ficamos com pena daqueles criminosos assassinos, estupradores, ladrões, etc. Tudo bem, ir a Ushuaia sem andar no trem Del Fin Del Mundo é como ir a Roma e não ver o Papa. Depois fomos até a Bahia de La Pataia. Um passeio muito bonito passando pelo Canal de Beagle e ficamos conhecendo o que um castor é capaz de fazer. Alguns anos atrás, alguém teve a ideia de importar castores do Canadá para ver se eles se adaptavam naquela região. Não só se adaptaram como acabaram fazendo um grande estrago construindo grandes represas com galhos o que provocou um desmatamento apreciável. O jeito foi levá-los de volta ao Canadá.
Neste parque, tem uma placa que indica o final da Ruta 3 e a distância deste ponto até o Alasca de 17.848 km. Fiz questão de tirar uma foto apontando para esta distância e prometendo a mim mesmo que esta será uma meta a ser perseguida tão logo esteja aposentado.
À noite fomos comer a famosa centolla, o caranguejo gigante da Antártica. Saboreamos a centolla em um bom restaurante acompanhados por um casal de dançarinos de tango. A dançarina queria dançar com um de nós homens, mas ninguém se atreveu, só a Gleide arriscou uns passos com o dançarino, e se saiu muito bem, diga-se de passagem.

11-02-2004 – De manhã levamos os carros para a troca de óleos e filtros e alguns reapertos. Enquanto os carros estavam na oficina, passeamos pela cidade procurando lembrancinhas para levar ou algo mais interessante. Aliás, o que surpreendeu a todos foi a grande quantidade de turistas e a infraestrutura da cidade para recebê-los. Alguém disse: “isto aqui está mais movimentado que a Disney”. Fomos conhecer o cais e seus grandes navios e transatlânticos indo ou chegando da Antártica.
Enfim, Ushuaia é uma cidade muito bonita e gostosa.

12-02-2004 – Saímos cedo de Ushuaia, no clarear do dia, muito frio e caindo uma neve fina. Aí percebemos, olhando para os picos nevados que nevou durante a noite embelezando ainda mais o contraste entre o escuro da manhã com os picos pretos encimados pela neve branca recente. Passamos pelo mesmo portal que nos deu as boas vindas, mas agora registramos o outro lado com o BUEN VIAJE – HASTA PRONTO.
Atravessamos novamente o Estreito de Magalhães e desta vez fomos acompanhados por alguns golfinhos pequenos, de cor branca com preta, parecendo pequenas orcas.
Sabíamos que a partir de agora pegaríamos boa estrada asfaltada e o temível vento patagônico.
E assim seguimos até Puerto Santa Cruz onde pernoitamos.

13-02-2004 – Próximo destino: Comodoro Rivadavia. Em Puerto San Julián pegamos alguns desvios de rípios e também algum off road para chegarmos ao litoral. Subimos uma falésia bem próxima ao mar e aí sim sentimos o vento patagônico que quase nos derrubava lá de cima e lá em baixo o mar bravio. O visual das falésias com camadas compostas quase que exclusivamente de conchas calcárias de bivalves de grande porte, geologicamente falando, é muito interessante.
Daí, seguimos a oeste e fomos visitar os Bosques Petrificados de Jaramilho. Em torno de 80 km antes da cidade de Jaramilho, tem uma placa indicando entrada à esquerda até os bosques e que são 50 km. Ida e volta são 100 km, mas vale à pena. A estrada de rípio é boa e ladeada por enormes mesetas com seu topo extremamente liso e plano formando um visual topográfico deslumbrante. Na chegada ao parque há um pequeno museu e um guarda parque que dá as orientações e nos guiam pelo parque. Podem-se ver troncos petrificados gigantescos. Uns com mais de 35 metros de comprimento (estão caídos) e chegando a 3 metros de diâmetro. Impressionante o que a natureza fez. Esta á a prova que naquele lugar, agora um deserto, já foi uma selva exuberante. A explicação é que a uns 130 milhões de anos, esta floresta desapareceu por causa da ação de vulcões que soterraram estas árvores gigantescas com suas cinzas e que, com a ação dos ventos e da água, esta cinza foi removida expondo estes troncos já silicificados.
21:00 horas estávamos chegando a Comodoro Rivadávia e vimos um posto G3 com um caminhão tanque da Petrobrás descarregando combustível. Como somos petroleiros, resolvemos parar para conhecer mais este posto pertencente à rede de postos recentemente adquirida pela Petrobrás. Comemos um bife excelente, tomamos café e seguimos até Comodoro.
Como chegamos muito tarde à cidade, nos dividimos para procurar algum lugar para ficar. Depois de muito procurar achamos um hotel, Hotel Azul, mas não tinha aposentos para todos, apenas três. Fizemos um arranjo em que os homens poderiam ficar em dois quartos e as mulheres no outro, maior. O Zé, Catarina e Odileno procuraram outra pousada. Para espanto de todos, o proprietário não aceitou que os homens dormissem juntos e nem as mulheres tampouco! Achava que aquilo não ficava bom para a imagem do hotel (ele estava imaginando sacanagem!). Daí, resolvemos separar por casais e ficar dois por quanto.
Nota: Na Argentina não encontramos motel. Será que eles não….

14-02-2004 – Comodoro Rivadávia é uma cidade grande com toda infraestrutura necessária. Na parte da manhã fomos visitar a cidade, fazer algumas compras e a tarde fomos até Camarones ver os pinguins. No caminho andamos um pouco sobre as praias formadas por seixos arredondados e muito bem selecionados o que dificultava o deslocamento. Em um dado momento, a Toyota pediu uma primeira reduzida e 4×4 para sair do ‘atoleiro’. Engraçado atolar em seixo.
Esta pinguineira é uma das maiores do mundo chegando a ter até meio milhão de animais na época do acasalamento. Quando chegamos lá não havia tantos, mas o suficiente para imaginar aquele lugar repleto de pinguins. É uma reserva e paga-se para entrar e desfrutar de certa infraestrutura que conta com caminhos feitos de madeira. Pode-se chegar bem perto dos bichinhos para fotografar, mas não é aconselhável colocar a mão porque a bicada deles pode ser muito dolorosa. A colônia era formada principalmente por filhotões e percebia-se que alguns deles já estavam ‘tomando aulas’ para entrar no mar e sair pelo mundo. Muito bonito apesar do mau cheiro devido aos excrementos.

15-02-2004 – Chegamos a Puerto Madryn cedo e com bom tempo. Novamente, eu, Milani, Zé e Cabral resolvemos acampar. Achamos um bom acampamento, armamos as barracas e aproveitamos para organizar um pouco os carros, principalmente o Cabral com sua mania de limpeza colocando a Super Neide pra trabalhar.
À tarde fomos para a Península Valdez passando pelo Puerto Pirâmides indo em direção a Punta Delgada para ver os elefantes marinhos. Na chegada, paga-se ingresso, e nos é indicado uma direção. Vamos caminhando até a beira de um penhasco e de lá se pode ver algo como pedras grandes alongadas, mas que se mexem, são os elefantes marinhos. Descemos a pirambeira e lá em baixo tem um biólogo que nos orienta para nos movimentarmos devagar e abaixados o máximo possível para não rivalizar em tamanho com eles, principalmente com os machos que são mais agressivos. É impressionante poder admirar estes animais bem de perto. As fêmeas são mais atrevidas e se aproximam das pessoas, a poucos metros, enquanto os machos ficam de longe e as vez em quando tentam se locomover ameaçadoramente, mas são tão enormes e desajeitados que desabam logo sob o seu próprio peso e ai ficam imóveis.
Daí, voltamos à estrada que circunda a península, uma estrada de rípio em boas condições e que volta e meia pode-se parar em lugares estratégicos para observar as colônias de pinguins, leões marinhos, tatus, lebres, etc. Sem dúvida Península Valdez é um lugar especial.
À noite fomos comer uma paella que, sem dúvida alguma, e não é só minha opinião, mas foi a melhor paella que já comi na minha vida. Inesquecível.

16-02-2004 – Só a partir de agora a viagem assume ares de volta. Seguimos pela pampa argentina até a cidade de Azul. Ficamos no Hotel Três Arroios e jantamos nele também. Não tivemos coragem e nem tempo para irmos dar uma volta na cidade. Além de que, o tempo estava chuvoso.

17-02-2004 – Seguimos para Buenos Aires. Uma e meia da tarde já estávamos no Restaurante La Estância, no centro de Buenos Aires, saboreando um belo bife de carne argentina. A partir daqui a turma se dividiu. Eu/Marinês, Milani/Vilma, Túlio e Cabral/Neide seguimos viagem enquanto Zé/Catarina/Odileno, Álvaro/Mara e Alexandre/Gleide permaneceram em Buenos Aires para poder conhecer e aproveitar melhor a capital argentina.
Saímos do restaurante e fomos procurar o ferry para atravessar o Rio de La Plata. Apesar de alguns erros de caminho conseguimos chegar ao porto e embarcar para Montevideo. Chegamos próximo das oito horas da noite e ainda estava claro. Decidimos atravessar a cidade e procurar um lugar mais sossegado para pernoitar. Chegamos a Piriápolis e ficamos no Esmeralda Hotel. É uma cidade a beira do Rio de La Plata, com uma orla ornamentada com palmeiras e bem movimentada durante a noite.

18-02-2004 – Seguimos viagem passando pelo badalado balneário Punta Del Este com suas mansões e cassinos impressionantes. Aí é que tá a dinheirama!
A poucos quilômetros da divisa com o Brasil, fomos visitar o Forte Santa Tereza, construído em 1762 pelos portugueses para o caso de guerra com a Espanha. Está muito bem conservado e é a fortaleza mais expressiva do Uruguai e realmente é muito bonita e interessante.
Almoçamos no Brasil, em Chuí. Compramos algumas bugigangas e alguns litros de whisky na zona franca, visitamos o litoral e daí seguimos para Pelotas.

19-02-2004 – Pernoitamos e acordamos cedo. Lá vamos nós para o final da viagem. Atravessamos o Banhado do Taím e chegamos a Porto Alegre onde oficialmente demos por encerrada esta grande viagem, aventura, prazeres, sonhos, companheirismo…..

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